BOTE SUA PAMPERS E NÃO MINTA!
Pintar paredes de cavernas.
Descobrir o fogo.
Pagar alguém para trepar loucamente.
Traduza essas três frases para o latim, e poderíamos gravar em toda e qualquer base de estátua - ou melhor, construir novas estátuas, todas em formas de caralhos gigantes em plena saudação. Em poucas palavras, essa é a missão declarada da humanidade: aqui, temos dois tipos de animais, os que têm pênis e os que são fodidos por eles. E nós sempre - repito, sempre - seremos os que têm pênis.
Sim, com certeza, a profissão mais velha do mundo.
Eu consigo pensar em uma profissão mais antiga, mas falaremos disso mais tarde.
É do lado de fora de um motel chamado Restin´ Easy que fazemos nosso esquema. Imagine isso: uma linda mulher de pé encostada em uma parede de tijolos, vestida graciosamente em uma blusa de seda estampada e jaqueta de couro. Ela está dando uma tragada profunda e sincera em seu cigarro longo, deixando um anel vermelho-sangue de batom no filtro. Ela tem a aparência de uma bela atriz dos anos sessenta - uma Audrey Hepburn em construção. Seu cabelo negro cai sobre os ombros e se move gentilmente com a brisa da noite.
Essa sou eu.
O homem careca de meia idade, usando uma jaqueta marrom e com a cara parecendo um traseiro espancado, esse é o Dave. Sim, Dave da pele oleosa que reflete a luz neon brilhante do letreiro de "TEMOS VAGAS" que está logo acima de nossas cabeças. Dave, o grande gastador, mostrando seu bloco de notas de cem dentro de sua carteira de couro falso.
Dave, o cuzão. Dave, o John.
"Crystal me recomendou você", me fala com seu tom arrogante e constante, como se eu fosse uma nova marca de loção pós barba que está querendo testar faz alguns meses. "Ela disse que você faz coisas que nenhuma outra garota faz. É verdade?"
"Mais ou menos." Digo, fingindo um sorriso provocativo.
Quando você está nesse ramo há tanto tempo como eu, você consegue medir seus clientes bem o bastante só com um olhar. Às vezes, isso é necessário para sua sobrevivência - você dá um passo em falso nesse ramo e pode acabar com um salto de dezoito centímetros cravado na sua coluna. Sexo fode com a cabeça das pessoas.
Dave, por culpa própria, é muito fácil de ler. Veste seu rosto de desprezo, como se fosse bom demais para a situação em que se coloca. Ele é rico e tem direito. Ele não sabe por que está pagando por sexo - um homem de seu cacife devia estar com várias mulheres a seus pés, claro.
Provavelmente é um vendedor de carros usados, penso, evitando dar um sorriso de deboche.
"O que eu posso fazer por você que Crystal não pode, docinho?", pergunto piscando meus olhos inocentemente.
Ele resmunga, um lado da boca se curvando em desprezo.
"Transar com ela é... seguro demais para o meu gosto."
"Seguro demais pra você, é? Já pensou em transar com um urso?"
"Não, não desse jeito. Quero dizer, ela é muito baunilha. Ela disse que não se sentiria confortável em fazer as coisas que eu quero."
Levanto uma das sobrancelhas e coloco minha mão com unhas bem feitas na cintura, virando minha pelve levemente para o lado. Caras como Dave são como jogos de video-game: assim que você descobre todos os macetes, fica fácil-fácil.
"Conte-me, querido", sussurro com minha voz mais sensual, "o que você deseja?"
O que eu esperava era uma resposta, o que recebi foi uma nota de cem dólares meio amassada na minha mão. Dave continua a olhar de um lado para o outro, como se estivesse com medo de alguém nos ver.
Isso nunca é bom sinal.
"Que tal irmos pra um lugar mais privado, aí eu te conto." Me disse. Sua voz escorria com desdém.
Joguei uma nuvem de fumaça em seu rosto e apaguei meu cigarro contra a parede. Por um lado, sua arrogância me tirava do sério, por outro, quanto mais rápido ocorresse, mais rápido terminaria.
O interior do Restin´ Easy é exatamente como a fachada faz parecer - velho e brega, mas com um certo charme, se você conseguir olhar além do fato de que o motel parou no tempo. Imagine um carpete branco, abajures que não foram substituídos desde os anos setenta e um gerente de bigode de lápis, procurando partículas de cocaína debaixo de suas unhas imundas. Em suma, era o meu tipo de lugar.
"Hey, John", falo com o gerente sorrindo amigavelmente, "Tem um quarto pra mim?"
O nome dele não é John, sei disso. Mas ele me lembra John Waters, então o apelido ficou.
O John-que-não-é-John me deu um sorriso e mexeu na lapela de seu terno de veludo, o laquê de seu cabelo reluzindo iridescente pelas lâmpadas de halogênio penduradas acima de sua cabeça.
"O mesmo de sempre?" Perguntou, sua voz estranha tão suave quanto o forro de um caixão. "Número sete está disponível."
Acenei com a cabeça e ele me atirou as chaves, mantendo Dave ao meu lado. Ele estava carrancudo, como se eu tivesse acabado de cuspir em seu rosto.
Davezinho estava acostumado com coisas melhores, isso ficou claro pra mim. Ele é um pervertido com princípio.
Corte rápido para o quarto sete. De uma forma ou de outra, todos os quartos de hotéis - pequenos e grandes, caros e buracos fedidos baratos - todos parecem o mesmo lugar, a mesma área liminar de destinos. Eles têm a mesmas paredes, mesmas camas, mesmas bíblias empoeiradas nos mesmos criados-mudos. Quadros de portos indescritíveis e jamais visitados juntos de florestas graciosas habitam as paredes, e um frigobar fica no canto do quarto parecendo envergonhado, como se soubesse o que é: um ladrãozinho com consciência.
Dave parece fora de lugar, como se estivesse sendo medicado por aquela imagem em tempo real. Ainda está com a cara de estou-sentindo-um-cheiro-de-podre-aqui e evitando contato visual comigo por seja lá qual for sua razão. Isso não me ajuda muito com a minha autoestima, pra falar a verdade.
"Então, está pronto?", pergunto, procurando uma resposta enterrada naquele rosto enrugado. "Espero que não demore muito, querido. Estou com fome e o Mc Donald´s fecha às dez e meia."
"Vai demorar o quanto eu quiser". Ele quase rosna, afrouxando a gravata.
Para mim parecia que aquele bastardo gozaria um punhado de areia depois de uma transa superficial. Ele nunca fez amor na vida - só fodeu, e fodeu mal.
Foi neste momento que minhas esperanças de me divertir naquela noite morreram.
Antes que eu percebesse, ele estava me empurrando para a cama e se despindo, me revelando sua pele pálida. Havia uma solidez nele - não uma solidez de casa feita de tijolos, mas uma solidez de argila seca. Era certo que se você conseguisse aquecê-lo o suficiente, poderia moldá-lo certinho de novo.
Tirei minha jaqueta de couro e minha blusa, depois as calças jeans, até que fiquei só calcinha e sutiã. Sem querer soar arrogante demais, posso perceber que sou a melhor coisa que ele já teve em anos - mas Dave não aprecia isso, não mesmo. Olha pra mim do mesmo jeito que Cristóvão Colombo deve ter olhado para a América - o olhar de um homem que está pronto para foder com tudo só pra declarar que seu pau murcho domina algo belíssimo.
Eu daria mais detalhes de como eu me pareço sem minhas roupas incômodas, mas isso lhe custaria grana, amor. Eu não sou barata.
Uma vez que estava só de cueca, Dave começa a abrir uma maleta que trazia consigo. Começo a me perguntar se ele iria me fazer assinar um termo de confidência ou uma merda dessas, até perceber que ele está tirando da maleta espancador coberto de tachinhas de metal.
Safado, muito safado.
"Isso parece doloroso", dou uma risadinha, piscando os olhos, sabendo que a falta do medo o deixaria mais bravo. "Estou vendo o motivo para Crystal se recusar. Por um minuto achei que você simplesmente tinha um pau estranho."
Para registro, o pau dele era de um tamanho e formato comum. Nada terrível, mas também nada marcante.
Ele só resmunga, escorrendo suas mãos pesadas pelo espancador.
"Não consegue fazer esse tipo de brincadeiras em casa, é?", perguntei.
"Nem em um milhão de anos", disse, finalmente se virando para mim. "Minha esposa não permitiria. Mas, bem, ela não está aqui."
Ele ri como um vilão dos anos sessenta riria.
"Sabe, eu já estive com várias prostitutas, mas nenhuma delas falava tanto quanto você", diz, dando passos tentadores em minha direção enquanto sua ereção começa a se antecipar. "Gosto disso. Desmontá-la será um desafio."
Me arrasto mais para dentro da cama, indo em direção aos travesseiros. A colcha parece ser barata e áspera contra a minha pele - embora eu não tivesse grandes expectativas sobre o Restin´ Easy. Não venho aqui pelo conforto pra falar a verdade.
"Um conselho, Davezinho", falei, dando uma piscadela, "me conquiste antes de me dominar. Fará o espancamento ficar mais satisfatório, não acha?"
Não falou uma palavra, recusando-se a admitir, mas concordando. Ouço um estampido baixo quando o espancador cai no chão, e ele engatinha para dentro da cama em minha direção como um cachorrinho.
Eu teria rido se não estivesse tão ansiosa pelo que aconteceria em seguida.
Como esperado, o sexo foi entediante. Para um homem que carregava por aí um espancador com tachinhas em sua maleta, parecendo o maldito do Patrick Bateman, ele tinha preferência pela posição tosca do papai e mamãe - uma posição que sempre considerei como a maionese do sexo: boa quando você está afim, mas se demais, enjoa tão fácil que você perde a vontade de viver.
Entretanto, ele puxou meus cabelos. Acho isso meio irritante, especialmente considerando o preço que custa para arrumar o cabelo hoje em dia.
Assim que termina, o corpo dele basicamente espirra no meu (graças a Deus pela camisinha, se não eu teria pego seu resfriado), e simplesmente cai sobre mim, arfando de exaustão. Demoraria mais uma hora para que ele recuperasse suas energias para me bater.
E eu nunca fui muito paciente.
"Uau, sensacional", me encontro dizendo, com o mesmo entusiasmo da voz do Google Tradutor, "Isso foi realmente algo."
"Cê acha?", ele pergunta, querendo que eu amacie seu ego.
"Bem, geralmente um bom sexo me deixa satisfeita,", pondero, "mas eu só fiquei mais faminta."
Ele dá um grunhido irritado e tenta se levantar, ainda pairando constrangedoramente sobre mim.
Meus lábios pintados estão franzidos em um sorriso apertado, enquanto meus dentes começam a crescer a partir de minhas gengivas, se afiando viciosamente. Tenho uma boca cheia de bisturis, e o pobre e ignorante Dave não é dos mais sábios. Já fiz isso antes, então sei mantê-los escondidos até o momento em que tudo acaba.
Esse momento, meus queridos leitores, é agora.
Sem avisar, eu agarro as dobras gordas de trás da cabeça enorme e suada de Dave e a puxo em minha direção. Meus lábios se curvam para cima de meus dentes em um sorriso maníaco de boca aberta, mostrando-lhe os dentes de piranha que mantenho ocultos.
"Carol mandou um olá.", sibilei entre minhas presas com uma risadinha cruel.
Um brilho terrível de reconhecimento passou por seus olhos quando eu disse o nome. O olhar universal de "puta merda, fui pego" estava espalhado por sua cara. O merdinha orgulhoso já parecia aterrorizado antes mesmo de ver minhas presas, ou quando mandei minha fala inspirada em Game of Thrones.
Ele não teve chance de responder. No segundo seguinte, eu o puxei mais para perto e prendi minha mandíbula contra o pescoço de porco dele. Ele tentou fugir, mas envolvi minhas pernas em sua cintura e segurei seus braços, imobilizando-o completamente.
Quando não estou escondendo minha força, ele vira um nada.
Dave tentava se desvencilhar fracamente enquanto duas trilhas de sangue escorriam de sua garganta, me proporcionando um drink quente e revigorante - como um chocolate quente, isso sempre fez com que eu me sentisse menos mal.
Não demorou muito para morrer, e quando morreu, foi aí que a alimentação de verdade começou.
Vou admitir, às vezes eu apago no meio de uma ótima refeição - aqueles sonos bizarros que dão depois do almoço, sabe? Mas, quando eu volto para a terra dos vivos, posso ver pelos números verdes picantes do relógio digital que só levei quinze minutos para causar todo aquele estrago.
Quando olhei para baixo para ver os restos mortais de Dave sejaláquemfor, vi apenas ossos, e que estava basicamente usando um avental vermelho de santo sangue, cortesia da minha presa.
É aí que percebo o quão cheia estou, então caio de novo na cama.
Colcha barata. Fácil de substituir quando faço sujeira.
"Dave, seu fodidinho irritante", falo com um rosnado, cutucando meu estômago inchado, "se eu não conseguir abotoar minhas calças depois disso, vou ter que cobrar extra da sua esposa."
Merda. Isso me faz lembrar.
Me inclinei, sentindo uma pontada de dor no estômago. peguei meu celular no bolso da calça jeans.
Carol. Carol. Carol. Já tinha seu nome gravado na discagem rápida.
Quando ela atende, só pergunta: "Está feito?"
"Que? Nem um oizinho? Geralmente as pessoas são educadas com os assassinos que contratam, moça."
Minha indigestão está tão forte que mal tenho forças para ser sarcástica - ah, quem estou querendo enganar? Sempre tenho forças para ser sarcástica.
"Só me diga que o saco de bosta do meu marido está morto."
Dou um grunhido de agonia enquanto meu estômago borbulha, como se o falecido Dave estivesse protestando.
"Sim, sim, sim. Morto, devorado e digerido. Que seja. Já me pagou?"
Ouço um suspiro longo vindo do outro lado da linha. A maioria das pessoas esboça a mesma reação quando ficam sabendo matei seus maridos, mas - a meu favor - nunca faço sem que me peçam.
Essas pessoas precisam de maridos mortos, e eu preciso comer. Parece justo pra mim.
"O dinheiro já deve estar em sua conta."
"Ótimo! E não podia vir em melhor hora, Carol. Depois do porco do seu marido, vou aumentar um número da calça. Você me deve um guarda roupa novo."
"Você não precisa comê-los, sabe...", ela diz, fingindo estar acima de tudo.
"Você diz isso por uma perspectiva humana. Eu não sou humana, portanto, temos diferentes necessidades dietéticas.", digo, estremecendo por causa da dor. "Mas se você estiver satisfeita com o serviço, deixarei a aula de biologia para outra hora, quando seu marido não estiver me matando por dentro, ok?"
"Acho que sim..."
"Preciso que você diga, Carol."
Ela suspira. De novo.
"Estou satisfeita com o serviço. Obrigada."
"De nada. Tchau."
Desligo sem cerimônias e caio deitada de novo na cama, deixando meu telefone de lado.
"Dez mil não é suficiente para essa merda.", resmungo, a dor do meu estômago piorando.
"Jesus Cristo, olha a sujeira que você fez!" Ouço um guincho, uma voz afeminada vinda da porta. "Achei que já tinha dito para você colocar um plástico na cama quando estiver fazendo essas merdas de assassina de aluguel!
É o John. O John-que-não-é-John.
Reviro os olhos para ele, enquanto ele começa a revirar o quarto, enfiando ossos dentro de uma sacola plástica.
"Isso arruinaria meu disfarce, John.", falo, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. "Eu finjo ser uma prostituta. Você sabe disso. E ninguém quer transar num quarto que parece ter saído da série Dexter. É meio broxante."
John dá de ombros e continua juntando os ossos. Sempre dou uma parcela do pagamento para ele, então ele não se importa de fazer a limpeza - afinal, eu comi a maior parte da sujeira. E agora eu só fico jogada na cama, no precipício do sono pós-refeição.
Amo finais felizes, vocês não?
Como disse mais cedo, sempre achei engraçado como as pessoas gostam de falar que a prostituição é "a profissão mais velha do mundo". Afinal, isso é só uma mentira brega.
Antes de sonharem em pagar por sexo, as pessoas já pagavam por assassinatos. E esse é o motivo para eu sempre ter trabalho, queridos leitores, e também do porquê mentirosos não sobrevivem.






















































